sábado, 10 de novembro de 2012

Artigo sobre Educação Física

Veja aqui em PDF, editado conforme normas da ABNT


AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA: UM DESAFIO POSSÍVEL E NECESSÁRIO
Larissa de Oliveira Pedra

Uma realidade diferenciada
Enquanto aluna do último ano do Curso Normal do Colégio Municipal Pelotense, venho há muito tempo me preparando para atuar com crianças nas séries inicias. Neste artigo, trago relatos do meu pré-estágio, realizado na turma 53-9 (5º ano) Escola Estadual de Ensino Fundamental Fernando Treptow, me deparei com uma situação diferente: uma turma de adolescentes, com características, necessidades e dificuldades distintas. Uma turma dita especial, com alunos que tinham entre 12 e 17 anos.
No período de planejamento pesquisei bastante sobre esta realidade diferenciada, tentando me preparar da melhor forma possível para atender as necessidades e anseios dos alunos, oportunizando assim situações propícias à construção de conhecimentos. A pesquisa é uma etapa fundamental do planejamento e prática pedagógica, como indica FREIRE (1996. P. 29)
Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. (...) Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo.
Uma das minhas maiores preocupações foram as aulas de Educação Física, que os alunos não estão acostumados a ter. Estavam acostumados a ficar livres na quadra para caminhar, conversar, ouvir música, enfim, era um momento vago nos horários e, contraditoriamente a Educação Física era a aula mais ociosa. Nas escolas do estado, as próprias professoras titulares das turmas devem trabalhar todas as áreas do conhecimento, incluindo Educação Física.
Além disso, a discrepância idade/ano em que os alunos se encontram, ainda por cima concentrados em uma classe especial, delegada a ficar em uma sala ruim, com cadeiras ruins e falta de todos os recursos imagináveis, o que contrasta com a realidade do restante da escola colaboraram para tornar esta prática cada vez mais desafiadora, pois os alunos além de todos os outros, tem também problemas de baixa autoestima.

Chega o momento: é hora de fazer a diferença!
Por motivos diversos tais como chuvas e mudança no quadro de horários da escola, consegui realizar apenas uma das quatro aulas de Educação Física planejadas.
Levei os alunos para a quadra, lá propus que ficássemos apenas na quadra “de cima”, como é conhecida. Disse aos alunos que estávamos trabalhando sobre identidade, e uma forma de firmá-la é relembrar a infância, que já tínhamos conversado, escrito, pintado... Agora era hora de relembrar as nossas vivências corporais. Vamos desenvolver brincadeiras que vocês devem conhecer.
Mesmo eu tendo demonstrado uma grande empolgação, a maioria dos alunos não quis participar da atividade. Então, tendo dois ou três querendo participar, reuni novamente a turma, estavam dispersos, sentados ou andando pelo pátio. Eles argumentavam que nunca brincaram na Educação Física, e que era bom ter um tempo livre ali na escola. Então, fiz uma fala quase sentimentalista, dizendo que não teria como desenvolver aquela atividade planejada, estudada, e que isso atrapalharia aquele projeto que eu tinha planejado com tanto carinho, tanto tempo de preparação... Mas que eu estava desistindo daquela atividade. Me distanciei dos alunos, deixando-os livres na quadra. No mesmo momento, os alunos se organizaram para desenvolver a brincadeira e vieram para a minha volta. Apenas dois não quiseram participar.
Neste momento, aconteceu um fenômeno escolar descrito por CURY (2008. P.101)
“Caros professores, cada um de vocês tem uma fascinante história que contém lágrimas e alegrias, sonhos e frustrações. Contem essa história em pequenas doses para seus alunos durante o ano. Não se escondam atrás do giz ou da sua matéria. (...) A educação moderna está em crise, porque não é humanizada, separa o pensador do conhecimento, o professor da matéria, o aluno da escola, enfim, separa o sujeito do objeto.”
Então, fiz o momento inicial, com a brincadeira água e gelo, o desenvolvimento com esconde-esconde e a finalização com a corrente humana. Ao final, os alunos disseram ter gostado de relembrar as brincadeiras e conhecer uma nova – a corrente humana foi novidade para todos eles.
Uma reportagem Bibiano (2010), cita:
“Aulas de Educação Física para (...) são obrigatórias e importantes? A resposta para a pergunta é sim, embora muita gente ache desnecessário trabalhar as questões corporais quando a preocupação maior deveria ser aprender a ler, escrever e fazer contas. (...)A disciplina não pode se resumir à recreação ou a reflexões simplistas sobre a qualidade de vida. O professor tem de atuar de maneira intencional, fornecendo subsídios para que os estudantes ressignifiquem o que já conhecem sobre as práticas corporais e desenvolvam novos entendimentos sobre o corpo humano.”

Aprendizados e reflexões conclusivas
Apesar de os alunos não estarem acostumados a ter aulas de Educação Física, consegui desenvolver bem uma aula. Talvez isso se deva ao fato de os alunos terem gostado muito de mim e do jeito que trabalhei, e dessa forma esforçaram-se para participar.
A experiência me oportunizou uma boa reflexão sobre o assunto e sou sincera sou reconhecer que ainda não sei como planejaria outra aula para este tipo de aluno. Na verdade acho que se os alunos estivessem acostumados a ter educação física seria mais fácil. Se eu tivesse mais tempo com a turma também os conheceria de forma mais consistente, podendo planejar aulas que os agradassem mais, embora já tenham gostado desta.
Também pude perceber que a Educação Física se faz necessária, pois além de ter seus próprios conteúdos a desenvolver, auxilia o aluno em todas as demais áreas do conhecimento.
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais para Educação Física (1997):
“No âmbito da Educação Física, os conhecimentos construídos devem possibilitar a análise crítica dos valores sociais, tais como os padrões de beleza e saúde, que se tornaram dominantes na sociedade, seu papel como instrumento de exclusão e discriminação social e a atuação dos meios de comunicação em produzi-los, transmiti-los e impô-los; uma discussão sobre a ética do esporte profissional, sobre a discriminação sexual e racial que existe nele, entre outras coisas, pode favorecer a consideração da estética do ponto de vista do bem-estar, as posturas não-consumistas, não-preconceituosas, não-discriminatórias e a consciência dos valores coerentes com a ética democrática.”


O triste é ver que isso é negligenciado por algumas escolas muito próximo de nós. Também pude perceber que a estrutura da aula (parte inicial, desenvolvimento e parte final) é muito importante para o sucesso da mesma, já que ajuda no controle da aula e principalmente preserva o corpo dos alunos. Me senti mais a vontade do que eu tinha imaginado, gostei muito de uma aula com bastante movimento e ao mesmo tempo acontecendo de forma organizada.
Entre todas as aprendizagens que tive neste período, quero ressaltar uma: aprendi que as coisas podem e precisam mudar. Também percebi que a mudança pode começar em mim, no jeito como eu penso e ajo, e que posso ser ainda uma multiplicadora desta esperança. Como disse FREIRE(1996. p.72):
A esperança faz parte da natureza humana. Seria uma contradição se, inacabado e consciente do inacabamento, primeiro, o ser humano não se inscrevesse ou não se achasse predisposto a participar de um movimento constante de busca e, segundo, se buscasse sem esperança.”
                Referências:
BIBIANO, Bianca. Olhar para o Corpo. Revista Nova Escola edição 233. Junho/Julho de 2010.
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais, 2007
            CURY, Augusto. Pais Brilhantes, Professores Fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
            FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.




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